As mortes às quais sobrevivi, me deram, desde sempre, uma certa intimidade com o silêncio, com o abandono, que eu aprendi a enxergar no rosto da efemeridade a essência do eterno. Minha poesia é forjada na ausência e na solidão. Uma vez estive do outro lado do abismo. Não foi sonho! Lá aprendi a amar e a ter a plena fruição de todo o amor que recebi. E a ter gratidão. Disso derivou a minha capacidade de reconhecer a dimensão poética nos outros, nas coisas e em mim mesmo. Mas não lembro exatamente como voltar lá (acho que só pode ter sido sonho mesmo). Minha poesia é essa eterna expectativa de reconstruir o caminho perdido. Embora a distância muitas vezes interrompa o fluxo dos meus versos, sem poesia a solidão seria insuportável. Escrevo pois procuro responder à pergunta primordial que me faço. A pergunta que responde a mim mesmo quem sou eu. Escrevo sem, no entanto, conseguir resposta. Sem exaurir o núcleo da dúvida e do mistério que me habita. (Ou sou eu quem habita no mistério?)
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