Havia uma casa no fim da rua que todos diziam estar vazia. Pintura descascada, portão enferrujado, quintal tomado pelo mato. As crianças atravessavam a rua com medo. Os adultos diziam: "Não tem ninguém lá. Faz anos." Mas eles estavam mentindo. Ou melhor, eles não sabiam ver. Porque toda noite, quando a lua ficava cheia — não uma lua qualquer, mas uma lua enorme, dourada, baixa, quase tocando as copas das árvores — a casa deixava de estar vazia. Ela chegava primeiro. Sempre descalça. Cabelo solto. Com o coração acelerado e a cabeça cheia de medos que o dia trouxe. Contas, trabalho, gente falando demais. Ela corria para aquele quintal porque era o único lugar onde o mundo ficava mudo. Ele chegava depois. Com a jaqueta surrada, com o cheiro de rua, com os ombros cansados. Mas quando via ela ali, naquela cadeira, tudo mudava. Ele não precisava dizer nada. Era só abrir os braços. E o lar deles não era a casa abandonada. Era uma cadeira. Uma cadeira de madeira velha, torta, rangendo, no meio
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